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Saindo do Google Photos: como montei meu próprio gerenciador de fotos

Faz um tempo que me incomodava a ideia de todas as minhas memórias — fotos de família, viagens, o registro inteiro da minha vida — estarem em um servidor que não é meu, sob regras que eu não controlo. Decidi resolver isso. O caminho até aqui teve mais desvios do que eu imaginava, e é isso que quero contar neste post.

A primeira ideia: montar um servidor

Meu plano inicial era o mais óbvio: montar uma máquina dedicada só para isso. Passei bastante tempo pesquisando preços e a conclusão foi rápida — hardware é caro. Não dá para comprar “um servidor”; dá para comprar um PC inteiro. Fonte, placa-mãe, processador, memória, gabinete e os HDs. Some tudo isso e o valor fica difícil de justificar.

O segundo caminho que investiguei foram os “mini PCs”, tipo Raspberry Pi e similares. Eles resolvem dois problemas reais: gastam pouca energia e são silenciosos, já que não precisam de refrigeração barulhenta. Mas também não são baratos, especialmente aqui no Brasil. Quando eu somava a plaquinha, a fonte, o cartão, o case e os discos, o desconto em relação a um PC completo não era tão grande quanto o marketing sugere.

O hardware que eu já tinha

Foi aí que a ficha caiu. Aproximadamente um ano atrás eu montei meu PC pessoal, para programar e jogar. É uma máquina potente. E é uma máquina que fica desligada a maior parte do dia.

Esse PC eu já usava como servidor de mídia quando não estava jogando ou trabalhando nele. Ou seja, a ideia de dar outro trabalho para a máquina nas horas vagas não era nova — só faltava dar mais um passo.

Por que gastar com mais hardware se eu já tenho um bom hardware ocioso?

Essa foi a decisão que destravou o projeto inteiro. O PC deixou de ser só o meu PC e virou também o servidor das minhas fotos. Zero reais em hardware novo.

O problema do armazenamento

O PC tem um SSD para o sistema principal, que é bastante usado, e eu não queria comprometer espaço dele guardando anos de fotos e vídeos. Precisava de espaço separado.

E ele também já estava ali: um HD de um notebook que não uso mais, ligado no PC por um cabo SATA. Esse disco já era o lugar onde eu guardava minhas mídias, filmes e séries, então ele já estava acostumado com o serviço. Foi só apontar as fotos para lá.

Mas confiar tudo a um HD velho?

Aqui vem a parte que me deixou desconfortável. Uma coisa é perder uma temporada de série num HD que morreu. Outra, completamente diferente, é perder memórias pessoais irrecuperáveis.

Confiar todas as minhas memórias a um HD de notebook usado seria uma aposta ruim. A solução foi o S3 Deep Archive. É a camada mais barata de armazenamento da AWS, pensada exatamente para isso: arquivos que você quase nunca vai ler, mas que jamais pode perder. O custo é irrisório para o volume que eu tenho, e a durabilidade prometida pela AWS é muito superior a qualquer disco que eu tenha em casa.

A dupla proteção

Com isso eu fiquei com duas cópias independentes das minhas memórias:

Se o meu HD pifar, está tudo no S3. Se o S3 morrer — algo muito improvável —, está tudo no meu HD. Se os dois derem problema exatamente ao mesmo tempo, aí sim eu perco tudo. Mas aposto alto que isso não vai acontecer.

Não é uma estratégia perfeita de backup, mas é infinitamente melhor do que depender de um único ponto de falha, seja ele o meu disco ou a nuvem de outra pessoa.

O software: Immich

Eu não queria um servidor de arquivos. Queria algo parecido com o Google Photos, com as mesmas funcionalidades, porque o que faz o Google Photos ser bom não é guardar o arquivo — é a experiência de navegar por ele.

Depois de pesquisar bastante, encontrei o Immich. Ele é perfeito para o meu caso. A interface é muito parecida com a do Google Photos, o app faz upload automático, a linha do tempo funciona como você espera, e o reconhecimento facial vem funcionando sem nenhuma configuração. Você sobe as fotos e ele simplesmente funciona.

Windows, WSL, Docker e o agendador de tarefas

Tem um detalhe que complicou um pouco as coisas: meu PC roda Windows. Como eu uso ele para jogar, e o mundo dos jogos no Linux ainda é quase perfeito, trocar de sistema não estava em discussão.

O Immich roda em Docker, e Docker no Windows significa WSL. Nesse ponto eu tive sorte: o WSL já estava configurado na máquina, porque eu já usava ele tanto para o servidor de mídia quanto para programar. Boa parte do caminho já estava andada.

O que montei em cima disso foram duas peças bem simples:

  • Um script .bat que sobe tudo — WSL e Docker. É basicamente um atalho para dar start no servidor. Se eu parar tudo para não consumir recursos enquanto estou jogando ou fazendo algo pesado no PC, é fácil subir de novo depois com um clique;
  • Um agendamento no Agendador de Tarefas do Windows, que roda apenas o backup para o S3. Ele não sobe o servidor, só cuida de mandar as memórias para a nuvem periodicamente.

Não é a solução mais elegante do mundo, e um bom cron no Linux resolveria com metade do trabalho. Mas funciona, e funcionar é o único requisito que importa aqui.

O fim da lua de mel: a bateria do celular

Depois de algumas semanas usando, apareceu o primeiro problema real: o app do Immich não tem a mesma eficiência do Google Photos no consumo de bateria. Rodando em segundo plano no Android para fazer o backup automático, ele gasta muito mais do que eu gostaria.

Ainda estou buscando uma solução melhor. Por enquanto, deixo o app pausado no Android e ativo quando quero enviar as fotos para o PC. Não é o ideal — perde-se justamente a parte “não preciso pensar nisso” do Google Photos —, mas resolve enquanto eu não acho um ajuste que equilibre backup automático e bateria.

E eu ainda pago o Google

Confesso: por medo de perder minhas memórias, continuo pagando o armazenamento do Google. Sim, eu montei toda essa estrutura e ainda mantenho a assinatura.

E acho isso justo neste momento. Estou no período de ganhar confiança no meu próprio sistema. Com o tempo, vendo tudo funcionar mês após mês, e talvez comprando mais um HD para montar um RAID, a assinatura deixa de fazer sentido e eu cancelo. Não tenho pressa. Migrar memórias não é o tipo de coisa que se faz com pressa.

Vale a pena?

Preciso ser honesto: o Google Photos é barato e atende muito bem a maioria das pessoas. Se você for comparar o preço da assinatura com o custo de comprar todo o hardware necessário, a conta não fecha — o investimento levaria muito tempo para se pagar. Se o seu objetivo é economizar, provavelmente não é esse o caminho.

Mas o meu objetivo não é economizar. As fotos são minhas, e gerenciar tudo por conta própria é muito legal. Saber exatamente onde cada arquivo está, quem tem acesso, e não depender de uma mudança de política de preço ou de termos de uso de uma empresa vale mais do que a diferença no fim do mês.

E, no meu caso, o hardware já estava ali. Ligado, ocioso, esperando algo para fazer.